Resiliência urbana e a capacidade adaptativa na qualidade das águas

Espalhe as águas

Ao final do texto você encontra um resumo para download das anotações da leitura do artigo Adaptive capacity based water quality resilience transformation and policy implications in rapidly urbanizing landscapes

Investigando virtualmente Lianyungang, China

O artigo trata das conexões entre Qualidade da Água e Uso e Ocupação do Solo, buscando evitar o colapso do sistema através da compreensão da resiliência urbana. Para tanto, os autores trabalharam com base nas avaliações de informações coletadas em Lianyungang, cidade costeira na China.

A cidade convive com usina nuclear e grandes terraços agrícolas, é interessante observar via imagens de satélite o rápido crescimento em um curto período de tempo e está bem posicionada no meio do tráfego costeiro chinês. Tem disponibilidade hídrica de 1 bilhão m³, consumo de 2.2 bilhão m³ GAP > 50%, isso a posiciona como cidade de “Escassez Absoluta” no Falkenmark Indicator (1989), abaixo de 500m³ por pessoa.

O Falkenmark Water Stress Indicator se baseia em fluxos disponíveis para grupos de até 2000 pessoas, isso na concepção original de 1989 que pode ter sido alterada.

O Índice de urbanização de Lianyungang é surpreendente comparado com sua história local ou com toda a China, de 57,13% (total China é de 54,77%) e a cidade cresce anualmente (10.5%), taxa economicamente maior que a média nacional de 7.4% em 2014.

O que é Resiliência?

A abordagem escolhida pelos autores determina que a resiliência “Refere-se a magnitude da mudança ou perturbação que um sistema pode experimentar sem mudar para um estado alternativo que tem propriedades, materiais estruturais e funcionais diferentes, transformando os pacotes de serviços ecossistêmicos que beneficiam as pessoas”.

Portanto varia quanto à propriedades do elemento, os materiais que formam à estrutura e as suas funções específicas ou diferentes. Os autores (e eu) declaradamente aderem aos princípios da Resilience Alliance:  http://www.resalliance.org/

O conceito de resiliência, em suas raízes no contexto aqui citado, surge em contraste com a tentativa de controlar os recursos naturais para produção estável ou máxima e ganhos econômicos espoliativos. Assume as abordagens em um contexto de acesso aos recursos naturais incerto e complexo que me lembra as conceituação de mundo VUCA, acrônimo do inglês para Volatility, Uncertainty, Complexity and Ambiguity, ou em pt-br, um mundo Volátil, Incerto, Complexo e Ambíguo que “visa alcançar uma prestação sustentável a longo prazo de serviços ecossistêmicos para o bem-estar humano”.

É este o cerne dos Serviços Ecossistêmicos, incutir um crediário na conta da Natureza, pois alguém vivo tem que pagar a conta de nossas líquidas verdades.

Não entendo a insistência metodológica destes cientistas em antropocentrizar todas as avaliações e valorar em moeda social corrente a Vida de outros e qualquer ser vivo. É iminente a possibilidade biodinâmica de um sistema hídrico a partir dos próprios dados e alinhamentos que se pode ter através dos resultados dos arranjos e rearranjos possíveis entre Qualidade da Água e Uso e Ocupação do solo.

Os ecossistemas não trabalham, o trabalho é per si social e a natureza vive por vontade própria, é um grande engodo a ilusão do possível controle. Por exemplo, tem-se a avaliação e regulação a partir dos pontos de “produção” e emissão dos recursos, mas nenhum dado ou referência ao real “consumidor”, o ser vivo que bebe a água ou àquele que desfruta de suas inúmeras multicapacidades através de suas raízes ou filamentos epidérmicos.

Quem valora a vida da natureza em breve vai cobrar cada gota absorvida por uma raiz.

Características dos Ciclos Adaptativos

A Capacidade adaptativa que busca ser um alvo definido no artigo refere-se à “capacidade de um sistema para lidar com perturbações ecológicas e sociais, a fim de manter a resiliência” (Folke etal., 2002; Holling et al., 2002; Smit and Wandel, 2006).

O objetivo principal da análise quando pensamos a resiliência é evitar os colapsos, fins totais da capacidade de viver como se vivia ou vive. Uma tragédia ou desastre, entre o cômico e o mórbido. Destacando a real interdependência entre todas as variáveis e escalas possíveis do planeta, pode-se selecionar algumas partes do amplo espectro e orientar ações locais ou regionais.

Deixar claro é necessário de que em alto nível entende-se que a Mitigação acontece quando em âmbito global e a Adaptação em âmbito local. Há poucas abordagens normatizando as diferenças e acredito que essa ausência tecnocrata do controle é ótimo para as possibilidades de criação.

O framework principal dos ecossistemas resilientes é explicitamente uma “ferramenta para pensar inspirada no equilíbrio ecossistêmico” organizada e publicada pela Resilience Alliance em 2007 que apresenta 4 fases claramente marcantes:

1. Crescimento ou exploração (R)
2. Conservação (K)
3. Colapso ou lançamento(omega)
4. Reorganização (alpha)

 

As fases tidas como rápidas são a de liberação e reorganização (3 e 4) e as fases lentas são
as de crescimento e acúmulo (1 e 2). É como na análise dos ecossistemas orgânicos onde para
crescer e acumular o processo é lento, mas rápido para colocar tudo a perder e serem
obrigatórias e incondicionais as transformações.

Lembro-me dos esforços do antropólogo Victor Turner em caracterizar metodologicamente
os rituais para os Ndembu em um (1) processo de ruptura, (2) crise e intensificação da crise, (3)
ação reparadora e (4) desfecho. O desfecho pode ser ótimo, bom ou de cissão social!

Métodos e Quadro de Avaliação

Os autores desenvolveram um método de 3 Etapas muito útil para a elaboração e replicação em pesquisas semelhantes que acredito serem simples de aplicação em âmbito local, vou experimentar assim que possível variando talvez o uso e ocupação do solo com a disponibilidade da água e quantidade de cactos no telhado da Colônia Capoava, por exemplo.

Mesmo tendo como referências a legislação específica da China é possível a adequação à legislação brasileira desta forma de avaliação da resiliência urbana. Somados aos conceitos atuais e monitoramento e desastres de riscos este framework (modelo) pode também facilitar a tomada de decisões em situações extremas, com cautelas porque entre os dois eu usaria o processo descrito pelo Turner, com modernidades e propondo-se de antemão ser kernel e não um aplicativo, estrutural ou antiestrutural.

Os autores criaram também 05 passos para uma Avaliação da Capacidade Adaptativa de um sistema urbano resiliente, detalhamento do que entendi como item 3 do método de 3 Etapas:

1. Descrição do Sistema
2. Compreensão da dinâmica do Sistema
3. Conexão entre as diversas interações entre os índices disponíveis
4. Avaliação da Governança – quem e como pode haver decisão sobre algum
problema/solução
5. Ação sobre a Avaliação

É necessário um esforço criativo, uma atenção irrestrita há possibilidades não fraudulentas de algo novo entre o público e o privado para que as decisões políticas sejam realmente políticas e não baseadas na técnica. Descrever sistemas vivos, compreendê-los e descobri-los com respeito às conexões ocultas, biológicas e sociais não são tarefas simples para qualquer pessoa que não saiba ser comum. Os comuns sabem.

Resultado Prático

A seguir a orientação dos autores para avaliação das políticas públicas de desenvolvimento urbano, ao menos foi o que me veio à mente ao traduzir seus textos:

“Lianyungang precisa equilibrar sua economia e proteção ambiental, a fim de manter a capacidade adaptativa para poder usufruir da qualidade da água antes do colapso do sistema”

Captei uma tensão irremediável, penso que é óbvio para quem observa estas análises da última década que o crescimento urbano na China (e em todo o mundo) indica o terror do colapso hídrico ainda este século.

Se abandonamos o imediatismo da última super novidade podemos observar fatos e controvérsias a todo instante e tema, mundo VUCA, munVUCA. Isso se deve principalmente aos altos níveis de conectividade e de cientistas vivos no planeta Terra, nunca houve tantos.

A poluição química, industrial e outras poluições minerais, comuns também em outras regiões do mundo devido ao aumento e liberação em corpos hídricos da produção de produtos químicos, metais não ferrosos, metais ferrosos, energia elétrica e térmica (Liangetal.,2014) são aparentemente tradicionais na China como aqui

As áreas mais poluídas estão espalhadas nas áreas urbanas de rápida aglomeração urbana e conectadas ao ajustamento estrutural de produção industrial nas áreas do plano “Um Centro e Duas asas”. É interessantíssimo observar a agilidade e robustez que a população tem para deslocar suas unidades produtivas e vivenciais e agir no reordenmento do uso do solo.

Muito triste é ver o enorme crescimento do desmatamento em topo de morros e colinas, os índices são assustadores.

As informações disponíveis afirmam que Políticas mais rígidas são necessárias para controlar o NH3-N, TP e Cd nas Áreas Construídas, bem como para os óleos e poluentes orgânicos nas Áreas Agrícolas e nas Terras Descobertas. Nas conversas com os amigos e amigas do PROFAGUA é uma boa oportunidade replicar o método para avaliar se o mesmo acontece por aqui.

O principais poluidores são efluentes domésticos nas áreas construídas e os resíduos não tratados em terras agrícolas e desnudas. A qualidade da água foi uma meta traçada nos planos regionais de melhorar para o Grau III em 2012 e atingir o Grau II em 2030. Com um cálculo superficial do câmbio chinês algo entorno de 1 bilhão de reais foi investido em 40 nestes projetos de melhoria da qualidade de água na bacia.

Resumindo minha avaliação o artigo é incrivelmente prático e inspirador e uma pena as análises serem desreguladas pelo ponto de vista antropocêntrico, gostaria de conhecer os resultados biocêntricos. Interessante perceber que devemos olhar para a diversidade dos países do mundo e seus diferentes códigos nacionais de recursos hídricos

Link do artigo

http://www.sciencedirect.com/science/article/pii/S0048969716312840

Autores do artigo: Yi Li, Jan Degener, Matthew Gaudreau, YangfanLi e Martin Kappas

 

Compilação do estudo que pode ser baixado (em português) abaixo feita por Carlos Diego

 


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2 thoughts on “Resiliência urbana e a capacidade adaptativa na qualidade das águas

  1. Interessante como conseguiram reduzir a ocorrênica de alguns compostos químicos poluentes (amônia e chumbo), enquanto a poluição por cádmio e óleo disparou para o mesmo período.

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